20/07/2020

Covid-19: Enfermeiros e técnicos se contaminam 3 vezes mais do que médicos

De 241 profissionais da saúde da rede municipal de BH infectados, mais da metade eram da área de enfermagem, que têm índice de contaminação de 3,6%, contra 0,97% entre os médicos; leia, na íntegra, reportagem do jornal O Tempo

Em contato direto com pacientes da Covid-19, enfermeiros e técnicos se contaminam três vezes mais do que os médicos
(SCHINCARIOL/AFP)

Na linha de frente, os profissionais da saúde que lidam diretamente com a Covid-19, estão mais expostos. Desde o começo da pandemia, só entre os servidores da rede do SUS-BH, 241 foram contaminados até o dia 16 de julho –  28% a mais se compararmos com uma semana atrás. Com a velocidade de disseminação do vírus, não é possível afirmar nem onde nem como eles foram infectados. Entretanto, uma estatística é certa: na área da enfermagem, o índice de contaminação é três vezes maior em relação aos médicos.

A reportagem cruzou os dados do quadro de  profissionais contratados em cada categoria, com número de casos confirmados pelo Boletim Epidemiológico divulgado pela Prefeitura de Belo Horizonte. De 2.968 médicos que trabalham na rede municipal da capital, 29 estavam infectados, ou seja, 0,97%. Já entre os 3.795 enfermeiros e técnicos, o índice sobe para 3,6%. São 139 casos, ou seja, mais da metade (57,6%) dos profissionais infectados são dessas duas categorias.

Considerando apenas os técnicos em enfermagem, o índice sobe ainda mais: 5,7%. Entre os que fazem parte desses números, não há certeza sobre onde a doença foi contraída, mas eles compartilham o desejo da ampliação da testagem, para aumentar a segurança. “Eu só soube que estava doente porque outras duas técnicas que trabalham no centro de saúde testaram positivo e nossa chefe pediu que todos que tiveram um contato mais direto com elas fossem testados. Se não fosse isso, eu poderia ter levado para minha mãe e minha irmã, ou contaminado outros colegas, pois fiquei assintomática”, conta uma técnica de 21 anos, que pediu para não ser identificada.

“Tive sintomas leves, graças a Deus não passei para minha família, que era meu maior medo. Eu fui testada porque estava com sintomas, mas acho que todos deveriam ser testados, com o PCR, que é mais eficaz do que o sorológico”, conta outra técnica em enfermagem, de 38 anos, que também pediu para não ter o nome divulgado.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que a categoria da enfermagem tem maior número de profissionais atuando nas unidades de saúde e, portanto, a exposição ao vírus pode ser mais recorrente. Destaca ainda que todos os profissionais seguem protocolos e trabalham com os EPIs recomendados.

Risco proporcional

Na avaliação da diretora jurídica do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Minas Gerais (Seemg), Carolina Brito,  além de o número desses profissionais ser maior em relação aos demais servidores da saúde, o motivo da categoria estar no topo das contaminações está relacionado ao contato mais direto com os doentes. “A gente fica à beira leito do paciente, dando assistência 24 horas. Principalmente os técnicos, pois são eles quem realizam a higiene e dão a medicação durante todo o dia”, afirma Carolina, que também colabora com o Conselho Regional de Enfermagem (Coren-MG) e com o Conselho Estadual da categoria.

Carolina, que sentiu na pele os sintomas da Covid-19, agradece pelo privilégio de poder enfrentar a pandemia longe dos familiares, mas conta o medo que sentiu, preocupada  em transmitir a doença. “Desde o começo, me mudei para outro lugar, para proteger meus pais e minha irmã, que são do grupo de risco. Manter o distanciamento familiar é muito ruim, mas é uma decisão consciente. Meus sintomas foram leves, mas, como estava sozinha, outra sensação ruim foi a de ter que organizar uma rotina para pedir ajuda, caso eu percebesse que meu quadro estava se agravando. A gente pensa: será que vou conseguir chamar o Samu? Será que minha vizinha vai abrir a porta a tempo?”, relata.

Carolina não tem certeza de como contraiu a doença. Mas afirma que, quem está em contato direto com pacientes, tem mais risco. “Eu não trabalho no atendimento de Covid-19, mas trabalho em uma ala que, devido à complexidade, permite acompanhantes. A gente acaba cruzando com pacientes e outras pessoas que circulam no hospital, isso facilita a circulação do vírus, que já se alastrou”, observa.

Ela está recuperada e já voltou a trabalhar. Mas muitos outros profissionais ainda estão afastados. É o caso de uma enfermeira de 25 anos, que trabalha no CTI de um grande hospital, mas pediu para não ser identificada. No dia da entrevista, ela estava no décimo dia de isolamento, com sintomas leves. “Eu sempre tive e muito medo de pegar, pois eu moro com minha mãe, que é hipertensa, mas ainda bem que ela não teve sintomas”, conta.

Essa enfermeira estava trabalhando quando sentiu o primeiro sinal da doença. “Era uma segunda-feira e eu tive coriza, então fui para casa. À noite, voltei para o hospital porque tive febre alta. Fiz o teste e, na quinta-feira, saiu o resultado positivo. Não dá para saber onde peguei, porque no hospital eu tenho todos os equipamentos de segurança. Mas pode ser que, num momento de descuido, eu tenha pegado na máscara e levado a mão à boca. Mas também posso ter pegado no supermercado”, afirma.

Na avaliação dela, é normal que técnicos e enfermeiros estejam no topo do ranking dos contaminados. “Além de sermos um número muito maior em relação aos médicos e fisioterapeutas, por exemplo, somos nós que ficamos prestando os cuidados durante todo o dia”, ressalta a enfermeira.

Veja alguns depoimentos 

Confesso que, desde começo da pandemia, eu fiquei com medo, pois a demanda aumentou demais e é a gente que atende o paciente. Quando eu testei positivo, pensei primeiro nas pessoas que tiveram contato comigo. Eu não me preocupei comigo, porque estava bem, mas pensava na minha mãe e na minha irmã.” (Técnica de enfermagem, 21 anos. Trabalha em um Centro de Saúde de BH)

Eu tive tosse, mal estar e dor de cabeça. Fiquei isolada em casa mesmo, morrendo de medo de passar para meu marido e meus filhos. Foi muito difícil ficar isolada com filhos pequenos. Fiz o teste porque várias pessoas que trabalham comigo tinham testado positivo.  Eu acho que não estamos usando todos os EPIs que deveríamos usar e, como atendemos diretamente as pessoas com suspeita, corremos mais risco.” (Técnica de enfermagem, de 38 anos, trabalha em um Centro de Saúde de BH).

Medo de transmitir para a família faz parte da rotina

Priscila Bonisson, 35, é gerente da Unidade de Decisão Clínica da Santa Casa BH. Num cargo de gestão, ela não tem contato direto com pacientes de Covid-19, mas pegou a doença. “O risco é diferente de quem está na lida diária da assistência, no entanto, apesar de um cargo de administração, trabalho dentro do hospital.  Mas a verdade é gente nunca sabe onde é contaminado. O fato de trabalhar em um hospital não significa que a pessoa foi infectada lá”, explica a enfermeira, que  adoeceu em maio e viu oito familiares serem contaminados.

“Depois de dois meses de isolamento, resolvemos passar o Dia das Mães com meus pais. Dois dias depois, apresentei sintomas. Na minha casa, também pegaram meus dois filhos e meu marido, que é médico. Uma tia também pegou. Minha avó, muito idosa, infelizmente morreu”, conta Priscila, que se lembra da sensação intensa de preocupação. “Minha mãe é paciente oncológica e chegou a ficar 18 dias internada no CTI, mas felizmente conseguiu se recuperar”, relata.

Além da angústia, a enfermeira conta que os profissionais da saúde ainda têm que conviver com o preconceito.  “Muita gente responsabiliza quem está em contato com os pacientes. As pessoas têm medo. Alguns amigos não querem nos encontrar, alguns vizinhos dão a volta quando nos veem. Mas não é porque a gente trabalha no hospital que vai ser contaminado. Podemos pegar em qualquer lugar”, afirma.

“Eu tenho sorte de trabalhar em lugar que oferece infraestrutura e apoio psicológico para equipe”, ressalta Priscila. Ela destaca que, desde o começo da pandemia, já era esperado que os profissionais da enfermagem seriam os mais contaminados. “A gente viu isso em outros países. São eles que prestam assistência direta ao paciente. E o vírus não é transmitido só pela saliva ou espirro. Tem as excretas dos pacientes. A cada banho, a cada troca de roupa de cama, existe o risco”, afirma.

Na Santa Casa, 56% dos profissionais contaminados são da enfermagem

Desde março, a Santa Casa BH registrou 448 casos de profissionais contaminados. Desse total, 56% eram enfermeiros e técnicos, 3,5% eram médicos e 40,5% eram das demais áreas.

“Nós temos 5.300 funcionários, sendo 3.000 da área assistencial. A grande maioria são enfermeiros e técnicos. Então, até por questão de lógica, eles são infectados em maior quantidade. A cada dez leitos de CTI, por exemplo, temos um médico, oito técnicos e um enfermeiro por turno”, explica a superintendente de Recursos Humanos da Santa Casa BH, Clarinda Maria de Macedo.

Sindicato faz pressão para ampliação dos testes

O Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Minas Gerais (Seemg) vai enviar notificações para as prefeituras intensificarem os testes entre profissionais com ou sem sintomas. “Já existe uma ação ganha, do Conselho Federal de Enfermagem, que obriga que todos os profissionais sejam testados. O que vamos fazer é pressionar para que os hospitais cumpram”, afirma o presidente do Seemg, Anderson Rodrigues.

Segundo Rodrigues, a categoria enfrenta um desafio da sobrecarga de trabalho, o que pode contribuir com os altos índices de contaminação entre enfermeiros. “A enfermagem já vinha trabalhando com um dimensionamento errôneo. Agora, com o aumento dos atendimentos de urgência, às vezes pode até acontecer um descuido na hora da paramentação, o que aumenta o risco’, considera Rodrigues.

Pequenas ações, grandes resultados

Para os minimizar os riscos, algumas ações simples têm surtido efeito. João Paulo José Vieira coordena uma equipe de enfermagem de um CTI em Belo Horizonte e tem apostado na humanização.

“A rotina da linha de frente é exaustiva e desafiadora. Quando a pandemia começou, eu percebi um medo e desespero, mesmo porque a doença era nova. A humanização tem sido uma estratégia essencial. No CTI, nosso lema é ‘Eu cuido de você e você cuida de mim’. Percebi que o momento mais doloroso dessa rotina era entrar e sair do hospital, com a paramentação e a desparamentação. O processo exige muito rigor, pois é aí que o profissional pode se contaminar. Então, a gente trouxe um olhar mais humano e implantamos um protocolo para que esses processos sejam sempre feitos em dupla. Assim, um ajuda a fiscalizar o outro”, afirma Vieira.

Lições da pandemia: humanizar é preciso

João Paulo Vieira divide a coordenação do CTI com Lilian Goretti Viegas Henriques. Os crescentes números de casos, eles não podem controlar. Então, juntos, buscam alternativas para deixar a rotina dos profissionais de saúde mais leve. “Nossas equipes, com apoio do Comitê de Crise, têm investido muito para se preparar e atualizar para que não faltem informações com embasamento crítico e teórico e muito menos EPI´s para todos. Criamos um questionário  para avaliar como andam os conhecimentos da equipe multidisciplinar, podendo, assim orientar ações contínuas de aprimoramento”, conta Lilian.

Assim como os pacientes, o colaborador também está em foco. “Os treinamentos sobre como paramentar-se tem sido contínuos, a cada dia o processo é renovado. Entendemos a necessidade de trabalhar o calor humano, a empatia e a valorização profissional para atingirmos o equilíbrio emocional de nossas equipes”, afirma a enfermeira que, apesar de toda apreensão da rotina, tem como missão transmitir a segurança. “No início foi uma sensação de medo. Agora, me sinto mais segura no CTI do que no supermercado”, conta Lilian.

E se todo dia tem desafio, também tem conquistas. “A pandemia de Covid-19 tem nos ensinado muitas coisas: a sorrir com os olhos, a reinventar os abraços, a perceber o quão carente de relações humanas nós somos”, afirma a enfermeira.

Avanço dos casos entre profissionais da saúde compromete reposição de equipe e aumenta a sobrecarga de trabalho

Em apenas uma semana, o número de profissionais de saúde das redes pública e privada cresceu 23%. Segundo o Boletim Epidemiológico da Prefeitura de Belo Horizonte, no dia 9 de julho eram 547. No dia 16 de julho, já tinha subido para 674. Desse total, 35% são servidores da rede municipal de saúde. “Temos alguns profissionais internados, alguns em estado grave. Mas, graças a Deus, não temos notícia de morte em Belo Horizonte”, afirma o  enfermeiro Hudirley Rodrigues, diretor licenciado do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel).

Segundo Rodrigues, o sindicato colhe dados junto aos profissionais dos centros de saúde e das UPA’s. “Os casos de contaminação ntre os profissionais de saúde estão aumentando muito. A partir do dia 13 de julho, a prefeitura ampliou a testagem, o que pode ter refletido nesse aumento”, avalia.

De acordo com Rodrigues, apesar da intensificação da testagem, Prefeitura de Belo Horizonte deveria trocar o tipo de teste. “Estão usando mais o sorológico, que detecta se a pessoa teve o vírus. Mas ele não é tão garantido, pois tem que ser feito a partir do sexto ou sétimo dia de sintoma, para dar positivo. Seria melhor adotar o PCR”, considera.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde esclarece que já adota o PCR para servidores sintomáticos ou não, que tiveram contato com pacientes positivos. Já os testes rápidos (sorológicos) estão sendo aplicados entre os profissionais de centros de saúde e UPAs  que fazem parte de um inquérito, que tem o objetivo de verificar a imunidade dos trabalhadores. Esses profissionais foram sorteados para participarem do levantamento.

De acordo com Rodrigues, outra preocupação da categoria é em relação à sobrecarga de trabalho e à falta de reposição de profissionais licenciados. “Quando servidores são afastados, o RH não faz a substituição imediata. Aqueles que ficam, acabam realizando o trabalho dos que estão afastados. Isso aumenta o risco de contaminação, pois aumenta a chance de cometer algum descuido, já que o volume de trabalho é maior”, avalia o enfermeiro.

O que diz a PBH

Por meio de nota, a Prefeitura de Belo Horizonte afirma que tem investido em várias frentes para que não haja prejuízo na assistência aos pacientes. “Desde março até o dia 3 de julho, 487 profissionais tiveram a jornada de trabalho ampliada temporariamente, para dar maior suporte ás unidades de saúde. Além disso, já foram contratados 117 novos profissionais para atuarem nos serviços abertos pela prefeitura ou nas unidades que tiveram ampliação na oferta de atendimento. E para reposição dos trabalhadores afastados preventivamente por maior vulnerabilidade à Covid-19, já foram contratados 474 profissionais”, diz a nota.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, todos os dias o cenário assistencial é avaliado para definir a necessidade de abertura de novos serviços específicos de atendimento aos casos suspeitos de Covid-19.

Sobre o protocolo de afastamento de profissionais, a Secretaria Municipal de Saúde explica que indica o PCR para qualquer profissional que apresentar, por sete dias seguidos, pelo menos dois desses sintomas: febre, calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza, perda de olfato e perda de paladar.

Segundo a Secretaria, esses profissionais são afastados imediatamente do trabalho e permanecem isolamento domiciliar até o resultado do exame OU até preencher todos os critérios de suspensão do isolamento domiciliar, que são: ausência de febre por no mínimo 72 horas, sem uso de antitérmico; melhora dos outros sintomas, e dez dias passados os sintomas.

Na avaliação do enfermeiro Rodrigues, o protocolo precisa ser revisado. “O resultado do teste tem demorado muito e, se a pessoa não apresentar sintoma em dez dias, ela tem que voltar ao trabalho. Mas isso é arriscado, pois há a possibilidade dessa pessoa voltar a trabalhar e, só depois, receber o resultado. Então, pode contaminar outras pessoas. O correto seria adotar o mesmo protocolo usado para a população com suspeita de Covid, que são 14 dias de afastamento”, ressalta o enfermeiro.

Fonte: O Tempo