18/08/2017

“Nascimentos respeitosos e amorosos são capazes de mudar o mundo, sim”.

Depoimento de obstetra sobre transformação profissional e parto tocou os presentes no lançamento do Projeto Apice On – Aperfeiçoamento e Inovação no Cuidado e Ensino em Obstetrícia e Neonatologia

Renata Reis comoveu os presentes relatando sua transformação profissional e o nascimento de Bernardo, em parto domiciliar conduzido por enfermeiras.

O seminário de lançamento do Projeto Apice On – Aperfeiçoamento e Inovação no Cuidado e Ensino em Obstetrícia e Neonatologia foi marcado por uma narrativa pouco usual. Durante a mesa redonda “Desafios da Atenção Obstétrica e Neonatal: integralidade do cuidado e integração ensino-aprendizagem”, a recém mãe Renata Reis, acompanhada do bebê Bernardo, foi convidada por Kleyde Ventura, presidente da Abenfo e professora da UFMG – que executa o projeto, desenvolvido pelo Ministério da Saúde – a falar narrar sua experiência de atenção e cuidado.

Médica obstetra e militante pelo parto humanizado, Renata Reis comoveu os presentes relatando sua transformação profissional e o nascimento do bebê Bernardo, em parto domiciliar assistido por enfermeiras obstétricas. Formada há 10 anos, ela aprendeu ainda no internato a fazer episiotomia, episiorrafia e manobra Kristeller — pressões aplicadas ao fundo uterino no período expulsivo. Além de não ser eficaz, a manobra pode provocar sérios danos para a mulher e para o bebê, como rupturas de costelas e hemorragias, e hoje é proscrita aos profissionais de Enfermagem.

Soco no estômago – “A primeira vez que ouvi falar em ‘violência obstétrica’ levei um soco no estômago. Então aquilo que eu fazia, que aprendi na faculdade, era violência?”, contou Renata. Numa prática em área rural, conheceu outra possibilidade de atenção ao nascimento e descobriu na assistência compartilhada “a medicina sonhada por toda a vida”.

“Quando eu vi as enfermeiras obstétricas atuando eu pensei: ‘nossa, mas cabe amor nesta relação?”, contou, emocionada. “Eu não preciso de nenhum recurso para não gritar, para dar a minha mão, para não mandar a mulher calar a boco, tudo o que já fiz, já reproduzi”.

Projeto Apice On promove o aperfeiçoamento no cuidado e ensino em obstetrícia e neonatologia (Foto: Ascom/Hospital Sofia Feldman)

Nascimento – No próprio parto, Renata precisou “aprender a calar vozes interiores”. O bebê estava defletido e assincrético, posições que dificultam o nascimento.”Quantas vezes eu ouvi que menino assincrético não nasce, que menino defletido não nasce?”, relembrou.

As enfermeiras obstétricas usaram a técnica de spinning baby para conduzir Bernardo à posição fisiológica, numa “intervenção bem vinda, amorosa, consentida”.

A evolução era lenta, e o medo grande. A equipe incentivou a obstetra, entre contrações do trabalho de parto ativo, a ser tocar. Edema de colo. “Quantas vezes eu operei por edema de colo, por mal posicionamento do feto?”, questionou-se. Aplicação de gelo ajudou a reduziu o inchaço, e o parto seguiu.

Com “cada centímetro do círculo de fogo queimando”, Renata entrou no expulsivo.  Nasceu Bernardo. “Eu chorava. Eu ria. Era o êxtase”. O bebê chorou um pouquinho e foi para o colo da mãe. “Depois as enfermeiras puseram uma fralda aquecida, mas entre eu e ele não havia nada”. Coberto de vernix, com a mãe suada, ensanguentada, o menino ficou aninhado, pele a pele, vernix com suor, quietinho.

“Nascimentos respeitosos e amorosos são capazes de mudar o mundo, sim”, concluiu Renata, encerrando a narrativa, enquanto o pequeno Bernardo acordava no sling.

 

Fonte: Ascom - Cofen