27/04/2020

Canal de apoio atende média de 130 profissionais de Enfermagem por dia

O canal de atendimento funciona 24h

Em meio à pandemia de Covid-19 e suas consequências, que tem afetado diretamente os profissionais de saúde, a Comissão Nacional de Enfermagem em Saúde Mental do Cofen tem disponibilizado uma ferramenta de apoio emocional por meio de chat aos profissionais de Enfermagem que estão atuando no enfrentamento dessa crise de saúde pública que está em curso no país.

Denominada ‘Enfermagem Solidária’, a iniciativa tem atendido cerca de 130 profissionais por dia. A estratégia, colocada à disposição dos profissionais de Enfermagem desde o dia 26 de março, é um canal de atendimento 24 horas que conta com a participação voluntária de mais de 150 enfermeiros especialistas, mestres e doutores em saúde mental espalhados pelo Brasil todo. Desde que foi criada até o dia 14 de abril, foram realizados 2.533 atendimentos.

“A iniciativa do sistema Cofen/Conselhos Regionais tem o objetivo de manter atendimento ininterrupto àqueles que estão na linha de frente do combate à pandemia da Covid-19 e necessitam ter seus sentimentos acolhidos e, de certa forma, precisam ser ajudados a compreender fragilidades e potencialidades diante de seus medos e da ansiedade, ou ainda tirar dúvidas sobre situações vividas durante a assistência”, explica a presidente do Coren-PR, Simone Peruzzo.

No Paraná, um dos enfermeiros voluntários é o conselheiro e coordenador da Comissão de Saúde Mental do Coren-PR Marcio Roberto Paes, que está atuando em uma das unidades de Covid-19 do Hospital de Clínicas da UFPR, além de ser professor do Curso de Enfermagem da instituição.

“Desde o início dos atendimentos por meio da estratégia ‘Enfermagem Solidária’, tenho dispensado 6 horas semanais para esta ação. O que tenho percebido é que a saúde mental desses profissionais tem sido alvo do estresse contínuo, do medo, da insegurança e do aumento da ansiedade, em alguns casos, um sofrimento intenso. O medo de se contaminar ou de contaminar algum familiar põe nossos colegas em uma apreensão exacerbada, culminando com um sofrimento psíquico e emocional, que acaba por colocá-los em situação de vulnerabilidade, afetando em muito a sua percepção da realidade”, diz o enfermeiro Marcio.

Segundo ele, os atendimentos duram de 20 até 55 minutos, sem um tempo estipulado. “Estamos totalmente disponíveis aos nossos colegas para acolhermos o seu sofrimento, dar apoio para que consiga enxergar as possibilidades de construção de mecanismos de enfrentamento às suas fragilidades e para encontrar um meio de fortalecer suas potencialidades”, ressaltou.

Os atendimentos são embasados no processo de Enfermagem em saúde mental, em que os enfermeiros que atendem se ocupam das suas competências terapêuticas e educativas, o que tem dado resultados, pois a maioria dos profissionais atendidos descrevem a diminuição de suas tensões ao final de cada conversa, se sentem acolhidos e cuidados pela iniciativa, o que é muito positivo, tanto para quem é atendido quanto para quem atende.

Saúde Mental – Marcio Paes explica que teoricamente a Enfermagem em saúde mental é um processo terapêutico significativo, em processo de amadurecimento, que atua na pessoa que necessita do cuidado e na pessoa que cuida. “Em alguns atendimentos, lia nos relatos dos colegas muitas situações que eu mesmo estou vivenciando, uma vez que também estou atuando diretamente no cuidado às pessoas internadas com Covid-19 ou em investigação. Esta experiência é muito construtiva, pois minha capacidade de compreender emocionalmente o momento daqueles atendidos é empaticamente verdadeira”, analisa.

De acordo com a coordenadora do projeto, Dorisdaia Humerez, a Comissão Nacional de Enfermagem em Saúde Mental do Cofen recrutou enfermeiros voluntários das comissões estaduais para participar do projeto. São cinco linhas telefônicas disponíveis e a cada três horas, um grupo de enfermeiros atende à demanda de todo país, quando então o plantão é substituído por um novo grupo. Ao todo, 150 enfermeiros especialistas, mestres e doutores em saúde mental se revezam na tarefa de ouvir e orientar seus pares neste momento de grande estresse da categoria.

“O serviço oferecido só é dirigido aos profissionais inscritos no sistema Cofen/Conselhos Regionais, porque é uma forma de nós atendermos de Enfermagem para Enfermagem. Os enfermeiros de saúde mental têm plenas condições de entender o sofrimento pelo qual estão passando enfermeiros, técnicos e auxiliares de Enfermagem que estão nas UTIs, prontos-socorros, unidades de pronto atendimento e demais serviços da linha de frente de enfrentamento à pandemia de Covid-19”, destaca a coordenadora. Segundo ela, o Conselho Federal já estuda a possibilidade de ampliar as linhas de atendimento, dependendo do monitoramento da demanda.

Dados – A grande maioria dos profissionais que procuraram atendimento são mulheres – 85,84%, o que reflete a composição majoritariamente feminina da profissão. A categoria que mais acessou o serviço foram técnicos de Enfermagem – 51,20%; enfermeiros – 39,65% e 8,06% auxiliares de Enfermagem. A taxa de satisfação é de 85%. O estado que mais demandou atendimento foi São Paulo, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O horário de pico das chamadas tem sido o início da madrugada, entre 1h e 3h, e os assuntos mais recorrentes são falta de EPIs, exaustão pelo volume de trabalho, medo do risco de infectar familiares, assédio moral por parte das chefias, discriminação por parte da população (vizinhos e conhecidos), entre outros.

Nota de repúdio – Nesta semana, uma técnica de Enfermagem que mora em Ponta Grossa, nos campos gerais, registrou boletim de ocorrência por discriminação, relatando a forma violenta que três mulheres que moram no mesmo residencial se dirigiram a ela, acusando-a de ser portadora do novo coronavírus, xingando e usando termos pejorativos contra a profissão. A técnica de Enfermagem estava com seus filhos pequenos no carro, que presenciaram toda agressão gratuita e equivocada. O Coren-PR está adotando as medidas cabíveis para solicitar desagravo público e emitiu nota de repúdio sobre o assunto, acesse a nota.

O serviço “Enfermagem Solidária” pode ser acessado no hotsite Juntos Contra Coronavírus. 

Veja alguns números do Atendimento de Apoio Emocional Cofen/Conselhos Regionais:

Atendimentos por estado:
0% — AC
0.65% — AL
0.65% — AP
4.36% — AM
4.36% — BA
4.58% — CE
1.96% — DF
3.49% — ES
2.61% — GO
1.53% — MA
1.53% — MT
0.87% — MS
12.20% — MG
2.18% — PA
1.31% — PB
3.05% — PR
5.88% — PE
1.74% — PI
9.80% — RJ
1.31% — RN
0.44% — RO
5.45% — RS
0% — RR
25.27% — SP
3.05% — SC
1.31% — SE
0.44% — TO

Atendimentos por categoria:
0.65% — Atendente de Enfermagem
8.06% — Auxiliar de Enfermagem
39.65% — Enfermeiro
0.44% — Obstetriz
51.20% — Técnico de Enfermagem

Atendimentos por sexo:
14.16% — Masculino
85.84% — Feminino

Autodeclaração de raça/cor:
1.31% — Amarela
40.96% — Branca
0% — Indígena
42.70% — Parda
11.76% — Preta
3.27% — Sem Declaração

Horários de pico:

01h-03h
08h-10h
11h-12h
12h-15h
19-20h
21h-22h
23h-01h

Temas das conversas avaliadas positivamente (as conversas são sigilosas):

Grande variedade. Anseios com a falta de EPIs, exaustão com o volume de trabalho, medo do risco de infectar familiares, pressão por parte da chefia imediata, discriminação por parte da população (vizinhos, amigos), ansiedade com as notícias disponibilizadas pela mídia etc.

Fonte: Coren-PR