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“Não é normal”: Enfermeiras relatam efeitos da violência no trabalho

Relatos de agressões e ameaças mobilizam os Conselhos de Enfermagem, que orientam profissionais, acompanham denúncias e cobram medidas de prevenção

18.08.2026

Enfermeira com marcas visíveis de agressão
Gisella Pereira, após ser agredida na triagem do Hospital Regional de Samambaia, em Brasília

“Eu não saio da minha casa pra trabalhar pra ouvir grito, ouvir ameaça.” A frase da enfermeira Magali Peres, de São Paulo, sintetiza uma experiência que, embora traumática para os profissionais de Enfermagem, ainda é reduzida a parte do cotidiano dos serviços de saúde. Na linha de frente do atendimento, as enfermeiras da triagem são as que relatam mais vulnerabilidade a violência. A classificação de risco – que segue protocolo de Manchester – pode ser a fagulha que detona explosão.

A violência verbal, banalizada, escala facilmente para agressões físicas. Levantamento do Coren-SP divulgado neste mês de agosto apontou que 72,6% dos 4.402 profissionais ouvidos relataram algum tipo de violência nos 12 meses anteriores. A violência verbal foi a mais frequente (89,2%), seguida pela psicológica (73,8%) e chegando à violência física (19,2%). 

O problema não é regional ou localizado. Em Brasília, a Gisella Pereira foi vítima de agressão durante um atendimento no Hospital Regional de Samambaia, em 9 de agosto. A paciente havia chegado com queixas de mal-estar, dor abdominal leve e dor ao urinar. Depois de avaliar os sintomas, Gisella orientou a paciente a procurar uma unidade básica de saúde ou uma UPA, já que o hospital estava em bandeira vermelha para clínica médica, atendendo somente casos graves.

A paciente pediu para fotografar a tela do computador. Quando ligou a câmera, porém, começou a filmar Gisella. A enfermeira pediu que não fosse filmada e se levantou da cadeira. Segundo seu relato, foi nesse momento que a paciente começou a agredi-la. “Ela já me deu vários golpes no rosto, tapas, socos, arranhões. Eu não consegui me desvencilhar até porque foi muito rápido e ela me pegou desprevenida”, conta.

Uma funcionária que estava em uma sala próxima chamou os vigilantes, que conseguiram interromper a agressão. Gisella registrou ocorrência, prestou depoimento e foi encaminhada ao Instituto Médico-Legal. O Coren-DF cobrou providência imediatas ao hospital. A violência gratuita ganhou repercussão na imprensa.

Socos na sala de triagem: Quando a notícia esfria, fica o medo

Com 21 anos de profissão, Gisella conta que já havia presenciado agressões físicas contra trabalhadores da saúde, mas nunca tinha sido vítima. Depois do episódio, permaneceu o medo, insegurança e impotência. “O que fica aqui é depois que o mundo vai embora e a notícia esfria. Uma mistura de sentimentos que eu tenho agora. Uma sensação de injustiça, de impotência”, afirma.

O impacto sobre a família tornou a experiência ainda mais dolorosa. “Quando eu vi os meus filhos chorarem, a minha mãe, o meu pai, minha irmã, quando eles viram esses ferimentos, doeu mais de vê-los chorarem do que em mim.” Ela também relata medo de ser perseguida ou de que algo mais pudesse acontecer depois da agressão.

Normalizada, violência verbal detona crises de ansiedade

Campanha Marcas da Enfermagem
Campanha Marcas da Enfermagem

Para Magali Peres, as ameaças na sala de triagem não chegaram a resultar em socos, mas detonaram quadro de ansiedade. A enfermeira trabalhava na classificação de risco de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no extremo sul de São Paulo, quando atendeu um adolescente com coceira nas mãos. Os sinais vitais estavam normais e o caso foi classificado como verde pelo protocolo de Manchester. Ao tomar conhecimento da classificação, a mãe do adolescente começou a insultar e ameaçar a profissional: “Você é uma vagabunda, uma inútil, eu vou te espancar quando você sair daqui”.

A enfermeira decidiu não interromper o atendimento. Continuou digitando e concluiu o procedimento enquanto a mulher seguia com os insultos, diante dos pacientes e funcionários administrativos. “Era o melhor a fazer naquele momento. Na sala onde eu fico não tem rota de fuga. Os pacientes ficam na frente da sala”, relata.

O autocontrole no momento não impediu uma crise que já dura meses. “Eu ainda assim tentei continuar trabalhando na data, atendi mais uns 2, 3 pessoas, mas eu não consegui”, relata. Magali conta que voltou a ter crises de ansiedade e passou a sentir angústia quando a classificação de risco começa a ficar lotada.

“Até hoje, quando eu fico aqui na classificação de risco, meu coração dispara, tem hora que eu fico meio angustiada”, afirma a enfermeira, que registrou a ocorrência na unidade e no Coren-SP. Foi oferecida a possibilidade de transferência, mas ela acredita que não resolveria, já que a situação é generalizada. “Uma colega chegou transferida de outra unidade justamente após sofrer ameaças de violência sexual e de morte”, conta Magali, que optou por não pedir transferência.

A UPA prevê a instalação de um botão de pânico, mas Magali relata que o equipamento não estaria disponível para os profissionais da classificação de risco. Para a enfermeira, um dos problemas está justamente na naturalização das agressões. “Tem colega que ainda fala assim, ‘ah, é normal as pessoas gritarem com a gente’. Eu disse, gente, desculpa, não é normal.”

Comissão de Enfrentamento à Violência

Comissão de Enfrentamento à Violência do Coren-SP
Comissão de Enfrentamento à Violência do Coren-SP

Para Vanessa Scarcella, conselheira do Coren-SP e coordenadora da Comissão de Enfrentamento à Violência, a própria experiência de ter sido vítima de violência no início da carreira reforçou a necessidade de acolhimento, orientação e acompanhamento. “Nosso objetivo é que nenhum profissional enfrente essa situação sozinho.”

“No levantamento realizado neste ano, no mesmo período da pesquisa anterior, identificamos uma redução de 7% na incidência da violência. É um resultado preliminar que pode estar relacionado às ações de conscientização, mobilização e enfrentamento, mas os números ainda são muito críticos: cerca de 70% dos profissionais informaram ter sofrido algum tipo de violência. Por isso, nosso trabalho continua. Nosso objetivo é que nenhum profissional enfrente essa situação sozinho”, relata a conselheira.

Magali e Gisella decidiram tornar seus casos públicos. Falar sobre a violência, para elas, é também uma forma de impedir que as vítimas permaneçam isoladas. “Nós escolhemos cuidar das pessoas, e isso nunca deve significar aceitar que elas nos machuquem.”

“Essa agressão não define quem eu sou, e eu também não vou fingir o que aconteceu. Porque é necessário que eu fale”, afirma Gisella. Depois de divulgar o episódio, diz ter recebido mensagens de antigos colegas e de dezenas de pessoas que também relataram experiências de agressão. “Por isso que a gente precisa colocar isso em foco, porque a gente precisa lutar por melhorias”, afirma.

A enfermeira também rejeita a ideia de que a violência possa ser justificada pelas dificuldades enfrentadas pelos usuários dos serviços. “Porque o sistema, às vezes, não funciona, eu pago.” Para ela, a responsabilização individual não pode ser transferida para quem está na linha de frente do atendimento.

Como denunciar

Em casos de agressão física, o profissional de Enfermagem deve se dirigir à delegacia mais próxima para registrar um Boletim de Ocorrência (BO) e procurar sua chefia e o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) de seu estado. Para ameaças ou agressões verbais, o BO também pode ser feito online. Os Conselhos de Enfermagem também oferecem o serviço de desagravo público.

“O Coren-SP atua no enfrentamento e na prevenção da violência a partir da identificação dos casos e de levantamentos que permitem compreender a dimensão do problema. Com base nesses dados, o Conselho cobra medidas do poder público e dialoga com os Poderes Legislativo e Executivo, além de promover audiências públicas em diferentes cidades e campanhas de conscientização. Já temos resultados concretos, como leis que estabelecem multas em São Bernardo do Campo e Mauá, protocolos de prevenção e atendimento em Osasco e projetos de lei em cidades como São Paulo, Mogi das Cruzes e Campinas”, afirma a conselheira Vanessa Scarcella.

A campanha Marcas da Enfermagem, lançada pelo Cofen em novembro de 2025, convoca a sociedade civil a unir forças em defesa dessa luta. “É inaceitável que profissionais que dedicam suas vidas ao cuidado da saúde sejam vítimas de violência. A campanha Marcas da Enfermagem nasce para dar voz a esses profissionais, sensibilizar a sociedade e cobrar medidas concretas do poder público”, afirma o presidente do Cofen, Manoel Neri.

 

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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