01/04/2022

Carta aberta explica posição do Cofen sobre EaD

Confira a íntegra do documento

Ensino Remoto Emergencial e Ensino a Distância: entenda o porquê de não apoiarmos o EaD no ensino de graduação e na formação técnica em Enfermagem

 

 

É de notório saber quão importante é a Enfermagem para o desenvolvimento social, econômico e para a qualidade de vida das pessoas, não somente por ser a maior categoria profissional em todo o sistema de saúde, como, principalmente, por suas competências, tão necessárias para melhor cuidar das pessoas, nas diferentes fases da vida, nos múltiplos contextos de cuidados.

A Enfermagem está em todos os cenários de saúde fazendo a diferença na sociedade. Assim, essa mesma sociedade necessita que os profissionais de enfermagem continuem assumindo, com maestria, o seu papel social, ao tempo que nós, os profissionais, desejamos elevar os padrões de formação na Enfermagem para garantirmos o nosso saber/fazer pautado nas demandas sociais, que são dinâmicas e complexas.

Foi desse modo que, no contexto da pandemia da COVID-19, os cursos de Enfermagem mantiveram-se firmes em seu compromisso social na formação de recursos humanos na Enfermagem, a partir do Ensino Remoto Emergencial (ERE). Essa mudança repentina, em caráter emergencial, fez com que surgissem confusões conceituais entre as pessoas em relação ao ERE e o Ensino a Distância (EaD). Em função disso, é fundamental que destaquemos as diferenças entre essas modalidades de ensino, para que a primeira (ERE) não sirva de justificativa de sustentação da segunda (EaD).

O ERE assume caráter provisório e temporário, apenas. Apesar de utilizar recursos tecnológicos que posicionem a modalidade remota/virtual no contexto das práticas pedagógicas, o ERE limita-se à transferência, de ordem circunstancial, das atividades pedagógicas presenciais para o ambiente virtual, considerando possibilidades de atividades síncronas (aquelas que acontecem em tempo real, entre professores e estudantes) e as atividades assíncronas (aquelas dirigidas e disponibilizadas pelos professores no ambiente virtual, mas que não necessitam que professor e estudante estejam conectados ao mesmo tempo para que sejam desenvolvidas). Em síntese, o ERE confere os princípios pedagógicos da modalidade presencial no ambiente virtual (MAGALHÃES, 2020; PAIVA, 2020; MOARES, et. al., 2021).

Por outra perspectiva, o EaD assume configuração filosófica e metodológica diferentes, pois, ao posicionar a modalidade virtual, remota, como perene ao processo de formação do estudante independente do contexto externo ao seu desenvolvimento, tal qual acontece com a crise sanitária atual, sinaliza sua posição pedagógica. Nessa modalidade surge, por exemplo, a figura do tutor como mediador do processo ensino-aprendizagem e as estratégias pedagógicas são distintas do ERE quando não há a mesma interferência do professor em atividades síncronas (MAGALHÃES, 2020; PAIVA, 2020; MORES et al., 2021).

Em um cenário em que o enfermeiro deverá demandar, cada vez mais, competências que envolvam habilidades relacionais para o cuidado humano, trabalho em equipe, liderança e demais processos colaborativos para o fortalecimento de uma formação coerente com as necessidades epidemiológicas atuais e vindouras, fomentar o EaD é ir contra as demandas sociais que sinalizam a importância de uma Enfermagem cada vez mais qualificada para cuidar das pessoas, nas diferentes fases do ciclo da vida, nos distintos contextos e cenários de cuidados em saúde.

Pelo exposto, em compromisso com a Enfermagem e com toda a sociedade brasileira reiteramos que somos contra o ensino a distância para a formação de enfermeiros, no âmbito da graduação, e na formação de técnicos de enfermagem.

 

Referências

 

Magalhães, RCS. Pandemia de covid-19, ensino remoto e a potencialização das desigualdades educacionais. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, RJ, 2020.

Paiva, VLMO. Ensino remoto ou ensino a distância: efeitos da pandemia. Estudos universitários: revista de cultura, v.37, n.1. 2020

Moares, CM; Silva, IR; Fonseca LF, Ciofi SC. Formação profissional da Enfermagem na Pandemia. In: Atuação da Enfermagem no enfrentamento à pandemia da COVID-19. Treviso P, Wehmeyr COT, Jacociunas LV (Org.). Porto Alegre: [s.n.], 2021 – 300p.